‘Invasão chinesa’ impacta setor automotivo brasileiro
Cerca de 15 montadoras chinesas já atuam no Brasil, e muitas outras preparam sua chegada ao país. A ‘invasão chinesa’ no mercado automotivo brasileiro é um exemplo do processo de expansão global da China e da revolução tecnológica – baseada em planejamento e inovação – que transformou o país na segunda maior economia mundial nos últimos 40 anos.
Uma visão particular da China e do impacto do seu ecossistema de inovação, negócios e tecnologia no Brasil foi apresentada por Felipe Leal, sócio da escola de educação executiva StartSe e co-host do podcast Inevitável China, na última sexta-feira, 18, na ACI.
Intitulado O futuro se constrói no presente, o evento teve abertura feita pelo presidente, Robinson Klein, e condução do vice-presidente de Inovação e Tecnologia, Giuliano Hoffmann.
Conforme Leal, a China possui cerca de 130 montadoras de veículos elétricos, híbridos e autônomos cada vez mais inovadores. Uma das mais conhecidas (presente inclusive no Brasil) é a BYD, que desenvolveu, entre outros, o U9, carro que, literalmente, pula, gira no próprio eixo e possui 1300 CV de potência.
Outro exemplo da revolução chinesa, além dos automóveis, são robôs humanoides que executam com perfeição diferentes atividades, como dar piruetas, dançar e brincar com crianças, que podem ser comprados no varejo. Há ainda um que troca a sua própria bateria e outro que simula uma luta de box perfeitamente, entre centenas de outros. “Mas, não é sobre robôs ou carros. Trata-se de fazer diferentes atividades de forma cada vez mais fluida”, disse.
Com a experiência de quem visita a China desde 2018 (em 2026, já esteve no país três vezes), Felipe enfatiza que o crescimento tecnológico tem relação direta com o plano quinquenal de desenvolvimento econômico do governo central chinês, que define metas de longo prazo, áreas prioritárias, ritmo de crescimento e objetivos para todo o país, mas permite que as províncias – muitas delas autônomas – disputem entre si para atrair empresas e obter os melhores resultados, desde que isso não comprometa o desenvolvimento sistêmico e a harmonia da nação.
No modelo chinês, a economia é mista, isto é, coexistem grandes empresas estatais com um setor privado ativo. Além disso, há um alinhamento rígido entre diretrizes centrais e a execução nas províncias, tendo como foco a transição para autossuficiência e a manufatura avançada, como IA e veículos elétricos. Devido ao incentivo à inovação, grandes big techs desenvolveram-se, tornando-se ecossistemas de inovação em si mesmas, como Tencent, Alibaba, ByteDance, Baidu Huawei, que lideram o mercado de tecnologia na Ásia e competem globalmente.
Cultura de inovação
Outro palestrante do evento desta sexta-feira foi o CEO da FCC, Marcelo Reichert, com o tema Inovação começa pela cultura da empresa. O executivo apresentou como a empresa fez uma transformação cultural colocando a inovação no centro de tudo, o papel da experimentação na construção do futuro, como instigar a criação e o compartilhamento de ideias e como estabelecer sistemas e mecanismos para sustentar a inovação contínua no longo prazo.
Desde 2018, o percentual do resultado que advém de produtores inovadores não pára de crescer. Naquele ano, era de 10%. Em 2024, chegou a 22%. O crescimento tem a ver com a capacidade criativa da equipe de pesquisa e desenvolvimento da empresa, mas também com a consolidação do programa que permite a todos os colaboradores da empresa apresentar sugestões. Em 2023, as ideias apresentadas chegaram a 66. Em 2026, até julho, totalizam 1200. “A taxa de implementação foi de 12% em 2023, 17% em 2024 e 19% em 2025”, disse o CEO.
Mas, se o desenvolvimento tecnológico chinês ameaça o segmento automotivo e outros setores econômicos brasileiros, também oferece oportunidades. A própria FCC implantou recentemente, em Campo Bom, a primeira unidade da América Latina produtora de ETPU, com tecnologia chinesa que combina leveza, conforto, resiliência e durabilidade para aplicações de alto desempenho em calçados. “O produto devolve 70% da energia para o próximo passo e tem tido muito boa aceitação na indústria calçadista”, enfatizou Marcelo.
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