Direitos, produtividade e competitividade: a conta precisa fechar
Todo ser humano merece descanso, lazer, educação, segurança, trabalho e dignidade.
O trabalhador merece ir ao supermercado e comprar o básico para alimentar sua família sem comprometer parcela considerável da sua renda, justamente para que sobrem recursos para desfrutar do descanso, investir na educação dos filhos, ter acesso à segurança, ao lazer e a uma vida digna.
Merece, também, que o mesmo governo que se preocupa com seu descanso deixe de ser faminto e voraz, a ponto de abocanhar quase 100% do custo adicional que sua contratação representa para a empresa, entre tributos, encargos e obrigações. Afinal, quanto menor o peso do Estado sobre o trabalho, maior poderá ser o espaço para melhores salários, novos empregos e investimentos.
O trabalhador merece inúmeros progressos que dependem da atuação do poder público. Mas, infelizmente, o que vemos com frequência é um governo que anuncia benefícios custeados com o dinheiro do próprio contribuinte, dos trabalhadores e das empresas, enquanto mantém praticamente intacta sua participação excessiva na renda nacional.
Quando o país enfrentará, com seriedade, sua baixa produtividade? Quando teremos uma educação pública de qualidade, capaz de preparar nossas crianças e nossos jovens para os desafios do futuro? Quando o cidadão e a cidadã de bem poderão viver com segurança? Quando o governo compreenderá que o desenvolvimento social sustentável depende de uma economia forte, de empresas competitivas e de empregos que gerem renda e oportunidades?
São questionamentos fundamentais para compreender o debate sobre o fim da escala 6x1, cuja aprovação no Senado, em 14 de outubro de 2026, reacende uma discussão que não pode ser tratada apenas sob a perspectiva política ou eleitoral.
O descanso do trabalhador é legítimo. A melhoria da qualidade de vida é necessária. Mas não se pode ignorar a realidade econômica de quem produz, emprega, investe e mantém a economia em movimento.
A Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom, Estância Velha, Dois Irmãos e Ivoti (ACI-NH/CB/EV/DI/IV) entende que qualquer mudança nas relações de trabalho precisa considerar a sustentabilidade dos negócios, a capacidade de geração de empregos e os efeitos sobre toda a sociedade.
Números que não podem ser ignorados
As estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) dimensionam a magnitude desse desafio. Em estudo divulgado em fevereiro de 2026, a entidade projetou que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, poderá elevar os custos anuais das empresas brasileiras entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões, conforme a alternativa adotada para manter o nível de horas trabalhadas. No cenário de contratação de novos trabalhadores, o aumento poderá chegar a R$ 267,2 bilhões, equivalente a aproximadamente 7% da folha de pagamentos considerada no estudo.
Na indústria, o impacto proporcional poderá ser ainda mais severo: a CNI estima um aumento de até 11,1% nos custos da folha salarial, com despesas adicionais que podem alcançar R$ 87,8 bilhões anuais, dependendo da estratégia de adaptação adotada.
O reflexo também chegará ao comércio. Segundo a estimativa da CNI, o setor poderá registrar uma retração de 0,9% em seu Produto Interno Bruto (PIB), correspondente a aproximadamente R$ 11,1 bilhões.
Para a indústria, a projeção é de uma queda de 1,2% no PIB do setor, equivalente a R$ 25,4 bilhões. Na economia brasileira como um todo, o estudo aponta uma possível redução de 0,7% do PIB, ou R$ 76,9 bilhões.
São projeções, e não resultados inevitáveis. Os efeitos efetivos dependerão da implementação das novas regras, da organização de cada setor e da capacidade de adaptação das empresas. Ainda assim, são números expressivos demais para serem ignorados em uma decisão dessa dimensão.
Para muitos dos negócios, a margem já é estreita, a carga tributária é elevada, o crédito é caro e a burocracia consome tempo e dinheiro. Acrescentar custos sem enfrentar esses problemas pode significar preços maiores para o consumidor, redução das margens, adiamento de investimentos, menor contratação e, em situações extremas, fechamento de empresas.
E quando uma empresa fecha as portas, não desaparece apenas um CNPJ. Desaparecem postos de trabalho, renda familiar, arrecadação, oportunidades e perspectivas de desenvolvimento para toda uma comunidade.
Direitos precisam caminhar com produtividade
O Brasil não pode continuar discutindo a ampliação de direitos sem enfrentar, simultaneamente, as razões pelas quais produzimos pouco e pagamos caro para produzir.
Precisamos aumentar a produtividade, modernizar a indústria, qualificar trabalhadores, melhorar a educação, reduzir a burocracia, ampliar a segurança jurídica e criar condições para que as empresas invistam, inovem e cresçam.
É preciso reconhecer que o desenvolvimento econômico não é inimigo dos direitos trabalhistas. Pelo contrário: uma economia produtiva, competitiva e em expansão é uma das principais condições para sustentar melhores salários, jornadas mais equilibradas e oportunidades reais de ascensão social.
Não existe política social sustentável quando se enfraquece a base econômica que a financia.
E o governo?
Se o objetivo é melhorar a vida dos brasileiros, o governo precisa fazer sua parte. Precisa reduzir o peso dos tributos e dos encargos sobre a contratação formal, enfrentar o desperdício de recursos públicos, melhorar a qualidade dos serviços prestados à população e criar condições para o aumento da produtividade nacional.
Precisa entregar educação de qualidade, segurança pública, infraestrutura adequada e um ambiente de negócios que estimule o empreendedorismo, em vez de penalizar quem assume riscos, investe recursos próprios e gera empregos.
Precisa, sobretudo, compreender que não há benefício verdadeiramente gratuito. Toda decisão econômica tem custos, e alguém acaba pagando por eles. Quando o custo de produzir aumenta, a conta pode chegar ao consumidor, ao trabalhador que perde uma oportunidade, ao empresário que deixa de investir ou à sociedade que cresce menos do que poderia.
A ACI-NH/CB/EV/DI/IV defende que mudanças dessa magnitude sejam acompanhadas de diálogo efetivo com os setores produtivos, avaliação transparente dos impactos e medidas concretas para preservar a competitividade, os empregos formais e a sustentabilidade das empresas.
Não se trata de negar ao trabalhador o direito ao descanso. Trata-se de defender que a melhoria de suas condições de vida seja construída com responsabilidade econômica, equilíbrio e visão de futuro.
O Brasil precisa parar de escolher entre o trabalhador e a empresa, como se fossem adversários. Um depende do outro. Sem trabalhadores valorizados, não há desenvolvimento humano. Sem empresas competitivas, não há geração sustentável de empregos, renda e oportunidades.
Porque o trabalhador merece muito mais do que o anúncio de um novo direito: merece um país em que seu salário tenha poder de compra, seu emprego ofereça perspectivas, sua família viva com segurança e seu futuro seja melhor do que o presente.
A pergunta que fica é: se o trabalhador merece tanto — e merece mesmo —, se as empresas precisam continuar produzindo e gerando empregos e se a sociedade exige melhores serviços públicos, então o governo quando fará sua parte?