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Notícias

18/05/2020

Covid-19: saúde pública, política e economia

O presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, Marcelo Lauxen Kehl, faz uma análise do cenário atual e mundial, com a realidade da pandemia da Covid-19.

A pandemia pegou a todos, em maior ou menor grau, no mundo todo, sobre isto não resta dúvida. Mas a discussão acerca do assunto tomou um rumo que foge do racional, na maior parte das vezes, o que em absoluto ajuda a que se tomem as melhores decisões para enfrentar todas as suas faces nefastas.

Esta é uma doença que, embora advinda de outras já conhecidas, pegou o mundo de surpresa e hoje, passados cerca de seis meses de seu aparecimento, a comunidade médica tem apenas um conhecimento parco sobre a mesma, embora os maiores cérebros do mundo estejam trabalhando na busca de tratamentos e vacinas. Uma coisa é certa: ela tem um alto grau de contágio, um certo grau de letalidade (principalmente nos mais idosos) e, exatamente por isto tudo, não pode ser menosprezada nem minimizada.

Há uma razoável clareza de que o distanciamento social é o melhor a ser feito, não para acabar com a pandemia, mas sim para alongar a curva de contágio e permitir que o sistema de saúde tenha condições de suportar os pacientes atingidos, possa preparar-se com ampliação de capacidade de equipamentos, de pessoal e de atendimento.

Como efeito indesejado tem-se o fato de a doença permanecer mais tempo junto à população, o que faz com que a volta à normalidade (se é que sabemos o que exatamente isto significará no futuro) seja postergada sabe-se lá por quanto tempo, e com todos os danos que isto pode causar às cadeias produtivas, geração de renda e empregos.

Aqui é importante uma observação: a dicotomia cuidar da saúde das pessoas versus cuidar da economia é absurdamente falsa. Nós todos somos seres únicos em nossa complexidade, e nossas faces corpo, alma, vida social, vida econômica, vida espiritual, etc, é o que nos torna quem somos. E se uma destas faces sofre, o todo sofre. Claro que, por tratar-se de uma doença, a parte cuidar da saúde do corpo ganha evidência, mas as demais não têm como serem desprezadas, com o risco de focarmos apenas um aspecto e os demais desandarem, trazendo consequências também desastrosas para nossa vida.

Algo que desde o começo preocupou-me foi como a questão ideológica e política entrou fundo num assunto onde, em absoluto, isto deveria ocorrer. Pois um tema desta importância e magnitude precisaria, para ser bem enfrentado, duma postura coesa das lideranças políticas e sociais, além de uma postura técnica. Aqui, quando falo técnica, não digo que apenas médicos ou cientistas devam cuidar do tema. A melhor abordagem seria reunir uma equipe multifuncional, com médicos e cientistas, economistas, gestores públicos, diplomatas, sociólogos, militares, etc. Com uma equipe destas, e todos pensando no bem comum, os resultados seriam muito melhores.

No entanto, o que se vê hoje, na maioria das vezes, são questões não prioritárias, personalistas e midiáticas colocadas à frente do bem comum. E a mídia, em grande parte, também assumiu uma postura de priorizar o que causa impacto, preferencialmente negativo (e a briga política ganha peso maior do que deveria neste aspecto, exatamente por gerar grandes manchetes e discussões). Cito ainda o fato de a imprensa apresentar, quase sempre, os números absolutos de casos e mortes no Brasil, que certamente são grandes, pois somos o sexto país mais populoso do mundo (Importante! As tabelas que anexo para embasar os números deste artigo são do dia 14/05, ou seja, uma foto do momento. E, ao colocar os dados per capita, não quero diminuir a importância de cada vida, pois sei que uma vida vale tudo. Assim, muito provavelmente os dados do Brasil – e do mundo também - continuarão piorando, e não sabemos aonde irão parar).

Ao analisar os dados per capita temos uma visão muito mais assertiva do que o dado absoluto, e conseguimos tirar conclusões muito melhores. Um exemplo: o Brasil é o quarto em número absoluto de casos, mas o 18° em números de casos per capita. Também é o quarto em número de mortes, mas o 16° em mortes per capita. E ver em uma mesma matéria um órgão de imprensa elogiar a Bélgica (que tem o maior número de mortes per capita disparado no mundo) e criticar o Brasil é uma amostra de como os dados podem ser distorcidos. E aqui não saberia dizer se de forma pensada ou apenas por falta de conhecimento. Outro exemplo de desinformação sensacionalista foi ver e ouvir, em um importante telejornal do horário do almoço no Rio Grande do Sul, há cerca de um mês, uma repórter afirmar que todos os hospitais do interior e da capital estavam com suas UTIs superlotadas. Isto, obviamente, não era verdade, mas ninguém refutou a informação, e ela passou como verdadeira.

Quanto à questão ideológica muitos tomaram uma postura totalmente ilógica. Só é verdadeiro quem diz aquilo em que estas pessoas acreditam, e se uma pessoa de campo ideológico diverso delas diz algo, mesmo lógico e verdadeiro, elas a atacarão de todas as formas. E aqui não diferencio quem é de esquerda ou direita, liberal ou estatista. Há pessoas de todas as matizes jogando este jogo estúpido! Um exemplo: há muita gente da esquerda caçoando das pesquisas da cloroquina e do rendesivir, apenas por elas serem defendidas por pessoas “da direita” (reforço, não há certeza sobre se estes medicamentos são realmente eficazes no tratamento desta doença, mas o fato de eles serem pesquisados, assim como muitos outros, é alvissareiro e desejável).

No quesito politicagem, creio que está um dos nossos maiores desvios. O presidente Jair Bolsonaro não é exatamente um conciliador e a questão de defender uma ideia fixa na questão do combate à pandemia (ou, mais claramente, ser contra uma ideia, que é o distanciamento social) não ajudou em nada. E, se ele tivesse tido uma atitude diferente desde o começo, ou mesmo agora, talvez estivéssemos numa situação melhor. No entanto, não pode ser imputada ao presidente toda a culpa pelos nossos números, pois o STF deu autonomia aos governadores para atuarem de forma diversa do governo federal, e há estados de todos os perfis políticos com números ruins. Por outro lado, estes governadores adotaram a mesma postura dele, apostando que no confronto ganhariam dividendos políticos, inclusive porque muitos deles sonham com o Palácio do Planalto. Como exemplo vemos dois casos bem distintos, mas que adotam posturas similares. Um é o governador Flávio Dino, do PC do B, do Maranhão, estado que votou majoritariamente contra Bolsonaro na última eleição e que é o oitavo em número de mortes no país, estando na média nacional. Outro é João Dória, do PSDB, de São Paulo, estado que votou majoritariamente no presidente na última eleição, e que é o sétimo em número de mortes per capita, 41% acima da média nacional. Ambos aparecem, diversas vezes por dia, na mídia atacando o presidente. E não digo que ele, muitas vezes, não mereça estes ataques. No entanto, se formos falar no que é gestão pública correta e ética, ou seja, pensar nos cidadãos pelos quais são responsáveis, estes ataques são inócuos, tiram o foco dos números ruins da pandemia em seus estados e têm como fim apenas a sua autopromoção política.

E muitos de nossos prefeitos vão nesta mesma direção, tomando decisões pensando prioritariamente nas eleições municipais deste ano, tentando mostrar-se o mais relevantes possíveis para seus eleitores, mesmo fazendo isto à custa da racionalidade. Pois não há outro motivo de o prefeito de um município que apresenta quatro ou cinco casos, e nenhuma morte, tomar as mesmas decisões restritivas de outro que apresenta centenas de casos, senão o pensamento na eleição.

Outro aspecto que ressalto nesta pandemia é a divisão do ônus econômico causado pela mesma. Até agora temos as empresas perdendo encomendas e receitas, trabalhadores formais perdendo empregos ou parte de seus salários e os informais perdendo seus ganhos. O poder público federal tomou ações rápidas e efetivas no sentido de mitigar estes danos, com a Medida Provisória 936, que buscou evitar ao máximo a perda de empregos, e o auxílio emergencial aos trabalhadores informais, dentre outras medidas. Ainda falta a efetiva liberação de linhas de crédito com juros não maiores que a Selic, carências e prazos longos, para capital de giro e aquisição de bens de capital, pois isto é que garantirá uma retomada mais rápida da economia.

Por outro lado, os governos estaduais e municipais pouco, ou nada, fazem neste sentido. Perdemos percentual expressivo de nossos faturamentos e salários, mas eles não abrem mão de seus impostos e taxas, nem das benesses auferidas pela máquina pública. É claro que entendemos que não tem muita margem de manobra, mas têm muito mais do que nós, do setor privado, que não temos arrecadação compulsória nem as gorduras que as estruturas governamentais possuem. Ou é justo e legal, antes ou agora, que tenhamos uma empresa pública como a CEEE, que cobra ICMS de todos nós, seus clientes, e não o repassa ao governo do Estado? Este valor já chega a R$ 2,16 bilhões. Teria sido fundamental para termos uma melhor estrutura de saúde e também para que o estado pudesse cobrar menores impostos e atrair mais investimentos e empregos, e é pornográfico isto ser aceito sem maiores questionamentos pelas nossas diversas instâncias (Executivo, Legislativo e Judiciário). Outro exemplo disto ocorre em Novo Hamburgo, onde temos a Comur (Companhia Municipal de Urbanismo), uma estrutura anacrônica e que drena recursos que poderiam ser muito melhor usados também na saúde. Estes são apenas dois exemplos, mas dão a ideia de como a nossa máquina pública é obesa e opulenta, e serve-se de nós, cidadãos, ao invés de servirem a nós, como é sua função precípua.

Há uma parcela da população, aquela ligada ao setor público, que também está omitindo-se, em sua quase totalidade, de participar do ônus econômico da crise, apesar de ser a parcela mais bem paga de todas. São os políticos (cerca de 70 mil), cargos comissionados (cerca de 1 milhão) e funcionários públicos (11,5 milhões). Representam 6% da população, mas concentram mais de um terço da renda. A maioria destes encontra-se em trabalho remoto, numa situação de absoluta tranquilidade, pois correm baixo risco de serem contaminados e, até agora, nenhum risco de perder sequer uma pequena parte de sua renda. Isto enquanto trabalhadores formais e informais, em sua maioria, perderam boa parte de sua renda e correm o risco de serem contaminados por terem que continuar trabalhando (aqueles que não perderam seus empregos, é claro, risco que inexiste para a categoria citada anteriormente). Esta condição de nós, do setor privado, sermos tratados como cidadãos de segunda classe, enquanto os do setor público, que deveriam nos servir, terem um tratamento de primeira classe, não é nem moral nem ética. Assim, pedimos a eles que juntem-se a nós para podermos minimizar o sofrimento de todos.

Concluo dizendo que não quis aqui trazer certezas nem assertivas absolutas, pois não as tenho. Busquei, sim, trazer uma luz diferente a certos aspectos que são menosprezados por muitos, mostrar que a ideologia e a política são o que menos interessa neste momento, e que a empatia deve ser praticada, sob pena de nos tornarmos pessoas frias e indiferentes (embora muitas chorem pelas mortes causadas pela doença), do alto de nossas frágeis opiniões e preconceitos.

CONFIRA A TABELA AQUI

Marcelo Lauxen Kehl
Presidente da ACI-NH/CB/EV